24 de março de 2010

"O medo causado pela inteligência..."



"Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu primeiro discurso, na Câmara dos Comuns, perguntou a um velho parlamentar, amigo do seu pai, o que tinha achado do seu desempenho naquela Assembleia. O velho pôs a mão no ombro do jovem Churchill e disse-lhe em tom paternal: "Jovem, você cometeu um grande erro. Foi demasiado brilhante neste seu primeiro discurso. Isso é imperdoável! Deveria ter começado um pouco mais na sombra. Deveria ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta!"
 
Ali estava uma das melhoras lições que um sábio pode dar ao pupilo que se iniciou numa carreira difícil.
 
Vale a pena lembrar uma famosa citação de Ruy Barbosa: "Há tantos burros a mandar em homens inteligentes que, às vezes, penso que a burrice é uma ciência."

A maior parte das pessoas encasteladas em posições elevadas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. temos de admitir, por outro lado, que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições importantes. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder.

Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas inexpugnáveis a quaisquer legiões de lúcidos.

Dentro deste raciocínio, que poderia ser uma extensão do "Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdão, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa de fingir que é burra se quiser vencer na vida.

É pecado fazer sombra a alguém, até numa conversa social.

Assim, como um grupo de senhoras burguesas e bem casadas boicota, automaticamente, a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo, também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um talento que os possa ameaçar.

Eles conhecem bem as suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam "com uma perna às costas..."

Enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres repudiam os talentosos para se defenderem.

É um paradoxo angustiante!

Infelizmente, temos de viver com estas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.

Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues: "Finge-te de idiota e terás o céu e a terra!"

O problema é que os inteligentes gostam de brilhar! (Mais tarde ou mais cedo, acontece!)

Que Deus os proteja, então, dos medíocres!..."

(texto publicado pelo Jornal da Baía em 23/09/1979)

Sem comentários: