24 de outubro de 2010

"O homem das castanhas"




"Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa."

Poema de Jose Ary dos Santos


Para escutar este poema cantado pela fadista Carla Pires clique aqui.

21 de outubro de 2010

Mariana Rey Monteiro (1922 - 2010)



«Vítima" por ser a "princesa herdeira" do "par real" do Teatro D. Maria, nunca se lhe deu o que lhe era devido por mais de 30 anos de actividade ininterrupta nos palcos: desde a "Antígona" (1946) que Júlio Dantas "refez" para ela e que Hermínia Silva parodiaria de forma genial na revista "Sempre em Pé", do mesmo ano ("Sem querer recito a 'Antígona' em calão"), até "Filhos de Um Deus Menor", já quase em participação especial.

Pelo caminho, uma carreira extraordinária de mais de 50 peças, só na companhia do Nacional, no Rossio ou nos seus vários exílios: Oscar Wilde ("O Marido Ideal", 1946), Shakespeare ("Sonho de Uma Noite de Verão", 1952; "Romeu e Julietâ", 1961; "Macbeth", 1964), Molière ("Tartufo", 1963), Ibsen ("Hedda Gabler", 1972) e Gil Vicente, Shaw, Santareno, Pirandello, Mrozek, Albert Camus, Valle-Inclán ou lonesco.

A sua pose distante e moderna em palco, uma voz bem timbrada e belíssima, com uns graves inesquecíveis, faziam dela a intérprete ideal das grandes heroínas do teatro americano de que tem que destacar-se a Blanche Du Bois de "Um Eléctrico Chamado Desejo" (1963) de Tennessee Williams, uma das primeiras vezes que tivemos a sorte de a ver em palco, desgarrada e trágica com a dignidade aristocrática que a personagem exigia e a actriz possui naturalmente. Mas há também Arthur Miller ("As Bruxas de Salém", 1957, ou "Do Alto da Ponte", 1960) e o desvario controlado e genial em "Equilíbrio Instável" (1967), de Albee.

No entanto, quando se fala de Mariana Rey Monteiro o que conta é a emoção de a ver chiquíssima em "Rosas Vermelhas (1965) ou mulher do povo em "Filomena Marturano" de De Filippo.

A versatilidade é, aliás, uma das suas características, capaz de todos os registos, como atesta a sua "humilde" criada na série televisiva "Gente Fina É Outra Coisa", uma das poucas (ínfimas) memórias para a posteridade de uma mulher fabulosa, que fez do palco e da transitoriedade do grande teatro a sua vida. Porque tem a humildade das grandes actrizes, nunca quis ser diva. Mas acredite quem nunca a viu sobre os palcos: quando entrava em cena era magnética e maior do que o mundo. "»

15 de outubro de 2010

Campanha "Salvem as Mulheres"

Na minha caixa de correio electrónica encontrei um mail de uma amiga, cujo conteúdo é sublime!... Claro... Um texto do gaúcho Luís Fernando Veríssimo... dá para não gostar?:-)

("Origin of Life", de Sandra S-Wise)

“O desrespeito à natureza tem afetado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana.  Tenho apenas um exemplar em casa,que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem as Mulheres!'

Tomem aqui os meus poucos conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:

Habitat
Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse de uma mulher, o que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.

Alimentação correta
Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro. Beijos matinais e um 'eu te amo’ no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial.

Flores
Também fazem parte de seu cardápio – mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade.

Respeite a natureza
Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação? Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso.

Não tolha a sua vaidade
É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, colecionar brincos, comprar muitos sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping. Entenda tudo isso e apoie.

Cérebro feminino não é um mito
Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então, aguente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objeto de decoração. Se você se cansou de colecionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.

Não faça sombra sobre ela
Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

Aceite: mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que, preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.

É, meu amigo, se você acha que mulher é caro demais, vire gay.

Só tem mulher quem pode!”


11 de outubro de 2010

Bento Carqueja, ilustre oliveirense ...

Bento de Sousa Carqueja (1860-1935), nasceu a 6 de Novembro de 1860 em Oliveira de Azeméis. Bento Carqueja foi escritor, jornalista, empresário, naturalista e professor da Universidade do Porto.



"Bento de Souza Carqueja nasceu na Rua Direita de Oliveira de Azeméis, filho de Maria Amélia Soares de Pinho de Souza Carqueja e de Bento de Souza Carqueja, um conceituado comerciante, vereador da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis e juiz de direito substituto.

Bento Carqueja frequentou o ensino primário na Escola Conde Ferreira, estabelecimento localizado onde hoje existe o Palácio da Justiça de Oliveira de Azeméis. Terminada a instrução primária, mudou-se para a cidade do Porto realizou os seus estudos secundários, custeados por Manuel de Sousa Carqueja irmão de seu pai e seu padrinho.

Teve sucesso nos seus estudos no Porto, concluindo o ensino secundário e iniciando a sua actividade profissional, em 1880, como revisor e colaborador do jornal O Comércio do Porto, diário de que o seu tio fora um dos fundadores.A sua apetência para o jornalismo conduziu a que cedo se envolvesse na edição do jornal. Quando faleceu o seu tio tornou-se co-proprietário do jornal, assumindo pouco depois as funções de director.

Concluiu em 1882 o curso livre de Ciências Físico-Naturais e em 1884 foi nomeado professor da Escola Normal do Porto, encarregue da leccionação das cadeiras de Agricultura e Ciências Físico-Naturais. Para coadjuvar no ensino prático das cadeiras, instalou o Jardim Botânico e os laboratórios de Fisiologia Vegetal e Química Agrícola daquela instituição.

Em 1893 visitou os Açores, publicando um relato das suas impressões de viagem e dando apoio ao movimento autonomista, então no seu auge. A obra foi incluída na Biblioteca da Autonomia dos Açores, uma colecção de obras de apoio à causa autonomista.

Quando em 1915 foi criada a Faculdade Técnica do Porto da então recém-criada Universidade do Porto, onde passou a leccionar as cadeiras de Economia Política, Contabilidade e Legislação de Obras Públicas.

Em paralelo envolveu-se num conjunto de iniciativas cívicas ligadas ao jornal de que resultou uma importante obra social, promovendo a construção de bairros operários, a organização de escolas agrícolas móveis e a fundação de várias creches sob a égide de O Comércio do Porto. Para benefício da obra social adquiriu um biplano que em 1912 voou no Porto e em Lisboa. Aquela aeronave, um biplano Farman MF.11, foi um dos primeiros aviões a voar em Portugal.

Outra área a que se dedicou foi à segurança dos pescadores e outros marítimos do litoral norte de Portugal. Em 1913 presidiu à comissão de angariação de meios para auxiliar as famílias das vítimas de uma tragédia marítima que ocorreu naquele ano na Póvoa de Varzim. Foi um dos promotores da instalação de um sinal acústico no farol de Leixões destinado a orientar a navegação em situação de nevoeiro. Aquele sinal sonoro foi dos primeiros instalados na costa portuguesa.

A sua competência em matéria económica levou a que fosse encarregue de diversas missões e da representação de Portugal em diversas conferências no país e no estrangeiro, o que lhe permitiu visitar diversos países. Dessas participações resultou ser feito membro de algumas Academias e Institutos portugueses e estrangeiros. Quando se decidiu criar uma comissão de propaganda da imprensa, foi um dos seus mais activos membros, sendo em 1918 eleito seu presidente, funções em que dirigiu vários manifestos à opinião pública portuguesa.

Na sua carreira académica, política e jornalística nunca esqueceu a sua terra natal, tendo promovido diversos melhoramentos entre os quais a iluminação pública de Oliveira de Azeméis, a construção da linha de caminho-de-ferro do Vale do Vouga, a construção do Hospital de Oliveira de Azeméis, a fundação da Associação dos Bombeiros, a criação da Santa Casa da Misericórdia, a fundação da Escola Técnica de Artes e Ofícios O Comércio do Porto, o restauro da Igreja Matriz e a construção do Parque de La-Salette. Também se lhe deve a publicação dos Annaes do Município de Oliveira de Azeméis, uma obra fundamental para o conhecimento da história e das personalidades ligadas ao concelho.

Esteve também ligado à fundação da Fábrica de Papel do Caima e a diversos outros investimentos que se revelariam estruturantes para a região do grande Porto, tendo para isso captado financiamentos vários, em particular os que foram suportados pelo Conde de Santiago de Lobão e pelo conselheiro Boaventura Rodrigues de Sousa.

Homem humilde, recusou altos cargos políticos, incluindo o de Ministro, que por várias vezes lhe foram oferecidos. Também recusou condecoração, apenas aceitando algumas agraciações estrangeiras, entre as quais a Medalha Benemerenti de Pio XI. Faleceu na Foz do Douro, na rua do Molhe, a 2 de Agosto de 1935, e foi sepultado em Oliveira de Azeméis.

Deixou uma vasta obra dispersa por periódicos, com destaque para o Comércio do Porto,
para além de várias monografias. Bento Carqueja é lembrado na toponímia de várias localidades. É também Patrono do Agrupamento Vertical Bento Carqueja, um conjunto de escolas básicas do concelho de Oliveira de Azeméis."

in Wikipédia

 
Um homem absolutamente fascinante. A sua neta Maria Eliza Pérez, escreveu um excelente artigo que nos revela a grandeza de Bento Carqueja: "Radiografia Sentimental de um Grande Homem" . Vale a pena ler...

6 de outubro de 2010

Professor e Mestre

A palavra "professor" formou-se a partir do latim profiteri, formada por fateri (confessar), com o prefixo pro- (diante, com o sentido de «diante de todos, à vista»). O Professor é  aquele que «professa», ou seja, que declara publicamente que possuí conhecimentos em determinada área do saber e que pode transmiti-los.


Há poucos ofícios tão nobres quanto este... Quanta responsabilidade e, quase sempre, tão escasso reconhecimento. Não há ninguém que não se recorde de um professor em especial: aquele que fazia desaparecer as dores de barriga, o que não se importava de ficar até mais tarde para ajudar no trabalho de grupo, o que ralhava, o que era exigente mas justo, ...

Sou filha de uma professora, e desde os três meses de idade até à saída da Faculdade, a Escola foi o grande espaço do meu mundo. Recordo-me dos alunos da minha mãe e os jogos de dominó para aprender a tabuada; da professora Zélia e as milhares de tentativas para que a nossa pronúncia fosse perfeita:-), do professor Albérico  e as suas exigentes aulas de matemática com dezenas de horas suplementares para que aprendessemos como "é bonita a matemática" ,.... enfim, os Professores são figuras incontornáveis na nossa formação.


E ontem, 5 de Outubro, foi o Dia Mundial do Professor! Fica aqui este poema, de autor desconhecido, como uma pequenina homenagem aos nobres homens e mulheres que dedicam a sua vida à formação de seres humanos.


“Ser professor é ser artista,
malabarista,
pintor, escultor, doutor,
musicólogo, psicólogo…
É ser mãe, pai, irmã, avó,
é ser palhaço, estilhaço,
espantalho, bagaço…
É ser ciência e paciência…
É ser informação,
é ser acção.
É ser bússola, é ser farol,
é ser luz, é ser sol.
Incompreendido?… Muito.
Defendido? Nunca.
O seu filho passou?…
Claro, é um génio.
Não passou?
O professor não ensinou.
Ser professor…
É vício ou vocação?
É outra coisa…
É ter nas mãos o mundo de amanhã.
Amanhã
os alunos vão-se…
E, o mestre, de mãos vazias,
fica com o coração partido.
Recebe novas turmas,
novos olhinhos ávidos de cultura.
E ele, o professor
vai desejando
com toda a ternura,
o saber, a orientação
nas cabecinhas novas
que amanhã
luzirão no firmamento da pátria.
Fica a saudade…
A amizade.
O pagamento real?
Só na eternidade.”

Autor desconhecido